Inteligência Artificial

Inteligência artificial e arte: Rocha de Granito ou A Última Ceia?

Para afirmar que motores de automóveis possuem a força de cavalos, nós usamos a comparação como medida, encontrando, assim, algo “em comum”. Talvez tenha chegado o momento de fazer o mesmo com a arte: ampliar ou reinaugurar o sentido

Faceless Portrait of a Merchant, obra criada por uma inteligência artificial (Foto: Reprodução)

Se você esteve em Nova York em março de 2019 e visitou a galeria HG Contemporary, no ambiente alternativo de Chelsea, provavelmente viu a exposição Faceless portraits transcending time. As imagens de rostos humanos disformes, em uma estética de cores contrastantes, que se destacam entre as manchas que lembram tecidos, foram todas criadas por inteligência artificial (AI).

Obras como essas, que agora recebem a terminologia de AI Art, ou seja, arte criada por algoritmos de Machine Learning (ML) ou Artificial Neural Networks (ANN), estão na pauta de artistas como Mike Tyka e Ahmend Elgammal. Tyka, um PhD em Biofísica, é co-fundador do programa Artists and Machine Intelligence. O programa é parte das células de inovação do Google.

Tanto Tyka como Elgammal afirmam que a IA promove a colaboração entre o artista e a máquina (não sei o porquê, mas isso me faz pensar no cocheiro das velhas carruagens manuseando as rédeas de uma parelha de cavalos). Apesar do apelo do tema, é o próprio Elgammal, no papel de professor de Ciências da Computação e diretor do Art and Artificial Intelligence Laboratory, da Rutgers University, quem pergunta: se a IA é capaz de criar imagens a partir do uso de ML ou ANN, poderíamos considerá-las arte?

Ora, a história demonstra que muitas palavras ganham novos significados por decorrência de novos paradigmas tecnológicos, científicos, filosóficos ou sociais.

A palavra vacina (“vaccinus”, aquilo que vem da vaca), por exemplo, foi cunhada pelo médico inglês Edward Jenner, que encontrou cura para a varíola a partir da observação de que mulheres expostas às vesículas variólicas das vacas, durante a ordenha, eram imunes à doença. O líquido das vesículas foi inoculado em pessoas, e a reação resultante imunizava o organismo. Hoje, a palavra dá significado às substâncias produtoras de antígenos imunizantes, aplicadas ao tratamento de várias doenças.

Ampliação de sentidos

Assim, não devemos desabonar qualquer tentativa de reinaugurar ou ampliar o sentido de arte. Porém, para afirmar que motores de automóveis possuem a força de cavalos, nós usamos a comparação como medida, encontrando, assim, algo “em comum”.

Para falarmos de algo “em comum”, a priori, já admitimos uma diferença – o cavalo não é um motor, e o motor não é uma parelha de cavalos. O que há em comum entre eles, no entanto, é a força para mover um objeto. É o velho e bom sentido figurado que dá às palavras novos significados.

Talvez tenha chegado o momento de fazer o mesmo com a arte: ampliar ou reinaugurar o sentido, pois, até então, o sentido corrente de arte não incluía algo que não fosse criado por humanos.

Seria mesmo isso? Não deveríamos antes revisitar o conceito corrente para ver se não estamos lidando com preconceitos? Haveria mesmo a necessidade de repropor o sentido de arte apenas para incluir o que ora se denomina Algorithmic Art?

Considere isto. É bastante comum encontrar entre os destaques de qualquer livraria títulos como A arte da negociação ou A arte da estratégia. Nessa linha, um dos mais vendidos é A arte da guerra, de Sun Tzu, um livrinho de 13 capítulos que predica estratégias e táticas militares para vencer o inimigo. Ou seja, falamos de arte dessa e de outras maneiras.

Certa vez, vi meu filho tentando enfiar um palito em uma tomada elétrica; eu o repreendi. Pois, para mim, ele estava “fazendo arte”.

De maneira genérica, chamamos de “artefato” os objetos produzidos por humanos (termo que etimologicamente quer dizer “feito com arte”).

A razão para essa farta referência advém da derivação, desde a Grécia Antiga, da palavra “tékhne” (no latim, foi traduzida como “ars”). Note, entretanto, que “tékhne” significa “produzir”. Na verdade, para os gregos, “tékhne” não significa nem “arte”, nem “artesanato”, mas, como explicou o filósofo alemão Martin Heidegger, é um “deixar aparecer”, ou seja, “trazer à luz algo que residia no obscuro”.

Podemos, assim, trazer à luz do entendimento o modo de fazer a guerra inteligente, ou trazer à luz da compreensão que uma criança já detém habilidades que podem colocá-la em risco.

Deveríamos considerar que, agora, lidamos com duas modalidades para “deixar aparecer” algo que, sem “tékhne” (produção), não apareceria: a arte produzida por algoritmos e a arte produzida por humanos.

Sculpture of a Young Lady, obra feita por uma inteligência artificial (Foto: Reprodução)

Dois lados da mesma moeda

Mas será que de fato se tratam de duas modalidades, duas artes distintas? Uma rápida pesquisa nos dá alguma pista.

O pintor americano Mark Rothko, certa vez, disse que, como artista, ele era apenas uma pessoa interessada em expressar emoções humanas básicas, como desespero, tédio, falta de sentido ou êxtase.

O grande escritor brasileiro Guimarães Rosa, autor de Grande sertão: veredas, costumava explicar sua arte literária como um processo de: “Não entender, não entender, até virar criança”.

Dentre os filósofos, Albert Camus dizia que a arte é algo que se dá pela “lógica do absurdo”, ou seja, ele considerava a arte como tentativa de dar sentido ao próprio ser, diante do absurdo da condição humana. Aristóteles escreveu que a arte é uma criação humana para completar aquilo que falta na natureza. E Foucault concebia a arte como um “livre dizer” ou como uma relação que se movimenta entre a subjetividade e a verdade.

Em meio a tantas inspirações, definições e poesia, contudo, a definição que mais me cativa é a do poeta, músico e crítico literário americano Ezra Pound: “Arte é novidade que permanece novidade.”

Observe que todas essas considerações sobre a arte incluem comprometimento existencial, ou seja, pelo fato de eu vivenciar minha existência, eu tomo conhecimento de mim e do mundo (algo que a atual geração de IA está muito longe de alcançar).

No hemisfério digital desse debate, os protagonistas da Algorithmic Art acrescentam perspectivas interessantes. Para Mario Klingemann, sua arte é derivada do algoritmo e do sistema em si mesmo. Já Helena Sarin compreende que a arte e o software estão em trilhas paralelas em sua vida e que utilizar Generative Adversarial Networks (GAN) a desafia e a entusiasma. O jovem artista de 19 anos Robbie Barrat gosta de afirmar que seus projetos expandem as fronteiras das neural networks e da arte tradicional.

A arte ou o artista

Bem, vamos com calma.

Essa arte produzida pelos algoritmos é recente. Mas e os artistas? Como qualquer artista tradicional, eles estão profundamente motivados por expressar seus estados emocionais, suas perspectivas de mundo, criar como crianças, experimentar, inventar, como se não entendessem ainda muita coisa.

Investir tempo em todo esse processo parece acompanhar a “lógica do absurdo”, de Camus. Esses artistas querem completar o que falta na natureza, como sugeriu Aristóteles. É o “livre dizer”, um dizer à maneira desses artistas que habita nas suas verdades, aspirando a algo novo. E do mesmo modo que os artistas tradicionais, eles recorrem a ferramentas para se expressarem. Se antes usavam pincéis, dedos, buchas de papel ou ponteiras, agora usam algoritmos.

Desse ponto de vista, por que haveríamos de fazer distinção entre Algorithm Art e arte tradicional? Enquanto houver um humano intencional e existencialmente comprometido em manejar o pincel ou o código, para dar expressão às suas perspectivas emocionais ou à sua interpretação da realidade, toda essa produção seria arte no mesmo sentido. Ou seja, essa produção é o deixar aparecer, o trazer à luz algo que residia no obscuro (o que se movimentava na mente do artista).

Contudo, não me parece ser essa a questão crucial do tema. Note que é o artista quem está comprometido existencialmente, não o algoritmo. Mas quem produz a obra, nesse caso, é o algoritmo. Ao artista coube produzir o algoritmo.

Pôr-se em obra da verdade

A pergunta necessária e urgente é outra. Por que a Algorithmic Art mereceria valor de obra tal qual a arte de humanos que utilizam ferramentas analógicas, como pincéis ou ponteiras?

Quando a arte do século 20 ofereceu novos movimentos, como, por exemplo, o Dadaísmo, que se associou ao acaso, ao caos e aos elementos de pouco valor, desconstruindo conceitos da arte tradicional e colocando abaixo os paradigmas da tradição, deu-se uma discussão semelhante.

À época, o debate inseminou na arte contemporânea noções de valor de obra que até hoje são discutidas. Casos como a rocha de granito, obra do artista Michael Heizeir, no museu de Los Angeles, desafiam o conceito de arte. A pedra bruta com 340 toneladas, apoiada sobre duas estruturas, recebe o nome de Massa Levitada.

Há também o famoso Penico de Duchamp, um simples mictório de porcelana que o vanguardista de origem francesa Marcel Duchamp enviou a uma exposição em Nova York, com o título de “Fonte”.

A pergunta continua em aberto: como definimos para essa “arte” valor de obra?

Qualquer critério é questionável; porém, se considerarmos a evolução da arte, o seu apelo à perfeição da forma, à perfeição do dizer de si e de sua verdade, de maneira a colocar o outro a pensar sobre a obra, como se perguntasse “Como é possível? Como ele consegue? Como ele pensou nisso?”, então dispomos de algum fundamento para definirmos o que é valor de obra.

Desde sempre a arte foi, antes de qualquer coisa, associada à dedicação para controlar a mente e ultrapassar os limites do corpo para dar à tela, à pedra bruta ou ao instrumento algo que pudesse ser percebido como expressão do que ia na alma do artista. Estávamos desde muito em acordo: o que diferenciava um artista de um não-artista era apenas a disposição de se pôr em obra, a disposição de abrir mão das urgências práticas do mundo para se dedicar ao domínio do fino e justo manuseio.

Ao colocar-se em obra, o artista é desafiado pela sua própria capacidade de manusear suas ferramentas (pincéis, cinzéis, palavras, instrumentos de sopro ou corda, etc.). Ele deve controlar seus ímpetos, esquecer o tempo, esquecer o “lado de fora”, para estar ali, consigo mesmo, de frente para seu intento, praticando a paciência, temperando o cansaço com a determinação de dominar justa e perfeitamente o manuseio. O que vai em seu cognitivo, os algoritmos de seu instrumental lógico, fracassará se ele não dominar essa verdade que habita além dos limites de sua habilidade para manusear os instrumentos.

O valor da arte está à mão e na mão do artista; o valor da arte é o valor do manusear de modo a buscar a perfeição possível de sua expressão. Manusear o pincel, manusear o cinzel, dedilhar as cordas de um violão, percutir o piano, dominar a linguagem, conciliar métricas e rimas: tudo isso sem pedir para que outra entidade o faça em seu lugar. Isso é o que me parece caracterizar um artista. É o talento que começa e termina com ele e decorre exclusivamente dele – o artista.

Diante de uma obra, o que nos assombra é o que ela demandou de seu autor. O que nos arrebata é o tempo investido, o domínio do instrumento, a determinação de expressar daquela maneira e não de outra.

É um sentimento tal qual aquele que, diante da A Última Ceia, de Da Vinci, nos causa estarrecimento ao compreender que a obra resulta da dedicação ímpar do artista, de sua determinação em estudar, descobrir e usar, à época, conceitos de perspectiva e aspectos de expressões faciais que, até então, não eram conhecidos. Essa magnífica pintura levou três anos para ficar pronta. Não há como não sentir intensa admiração por esse quadro – é verdadeiramente uma obra de arte, ela é exemplar.

Assim que vale um acréscimo às palavras de Pound: arte é a novidade do artista que permanece novidade, entendido que artista é quem se põe em obra da verdade de sua expressão, pelo fino e justo manuseio – seu talento.

AICAN – um artista autônomo?

Como fechamento para essa minha reflexão, faço referência ao programa de AI que, até então, é tido como o mais avançado na produção de arte – o AICAN.

Esse programa usa algoritmos de Artificial Intelligence Creative Adversarial Network. Essa técnica permite que o AICAN funcione como um artista autônomo, que aprende a partir de estilos e padrões estéticos existentes, gerando imagens por si mesmo, sem a intervenção humana, sem a intenção prévia de seu criador (autor).

Obra criada pelo algoritmo AICAN (Foto: Reprodução)

O que me parece ficar sutilmente esquecido é que o AICAN toma o caráter exemplar de outras obras de arte. A suposta arte produzida por esse programa advém dos exemplos daquilo que é arte para quem fornece os dados para o AICAN.

Veja, o programa não decide escolher exemplos de obras que ele entende como a arte que mais lhe apetece. O insumo é dado pela escolha de seu “operador”, aquele que inicia o programa – o suposto “artista”.

O que o AICAN faz é tomar os dados oferecidos – e somente esses dados –, dados que seu criador entende que são exemplares, e aplicar o algoritmo para produzir imagens que se aproximam daquelas pinturas feitas por humanos e escolhidas por um humano.

A pergunta final é: quem de nós haveria de perguntar ao programa “Como é possível? Como ele consegue? Como ele pensou nisso?”

Talvez tal questão seja resolvida por um algoritmo com a função de criar respostas com base nos dados e nas preferências daquele que propõe a pergunta. Acho que coincidirá muito com minha opinião. Aí, tudo estará resolvido.

*Cassio Pantaleoni é escritor, mestre em Filosofia pela PUC-RS e presidente do SAS Brasil

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